sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

RESPOSTA AO TEMPO

Era uma simpática senhora de 100 anos, dessas que parecem não entender, ou aceitar, que já chegaram a um século de vida. Pelo contrário. Não apenas sua aparência era de setenta e poucos, como também seu jeito vívido mostrava que ela não estava disposta a parar tão cedo.

Procurou o hospital reclamando de uma fraqueza que tinha aparecido há alguns meses. Com o apoio de meu ótimo estudante de internato, decidimos internar para descobrir o que era. Nossa primeira pergunta foi simples: com aquela idade toda, fraqueza não era natural? Ela não gostou. Fez cara de quem não aceita ser tratada como alguém que deve passar o dia numa cama, e avisou "Sou campeã de dança na gafieira!".

Ela era mais surpreendente que isso. Conversamos sobre outros sintomas. Tinha apetite de leão e disposição para horas de atividade. De todas as coisas perguntas, a única que percebia era uma batucada no peito todas as vezes quando corria. QUANDO CORRIA. Realmente era difícil acreditarmos que alguém pudesse ser tão saudável naquela idade, e só isso nos ensinou que ser idoso não é deixar de viver.

Perguntamos se tinha alguma doença. Ela disse que em toda sua vida não adoeceu de nada sério, e só tomava remédio quando estava gripada. Não tinha pressão alta, diabetes ou colesterol... Nada! Comentou também que puxou à família: todos eram saudáveis, ninguém nunca ficou doente.

Logo na admissão dela, percebemos que estava muito pálida, embora não estivesse sentindo nada demais. Os primeiros exames confirmaram nossa suspeita: ela estava com anemia. Por esses exames, também, sua  anemia parecia ser apenas deficiência de vitamina B12. Era incrível, para nós, imaginar que depois de 100 anos aquela simpática senhora estava sendo internada num hospital pela primeira vez porque estava com pouca vitamina. Incrível e apaixonante.

Desconfiando dessa deficiência, lembramos que ela costuma ocorrer em quem faz cirurgias bariátricas, em quem tem doenças no intestino e em pessoas que seguem dietas vegetarianas. Logo desconfiamos: era esse o segredo. Quando interrogada se era Vegan, a senhorinha riu "Adoro uma carninha de porco! Adorava criar porco na fazenda só pra fazer churrasco no final de semana. Mas também gosto de carne de boi".

Já estávamos sem saída para aquele mistério, que era muito maior a respeito de sua jovialidade que de sua doença. No segundo dia de internamento, porém, seus novos exames assustaram: mostravam uma condição laboratorial chamada pancitopenia, quando todas as células do sangue estão muito diminuídas. A própria anemia por deficiência de vitamina poderia causar isso. Mas havia algo a mais. Suas células de defesa, que no normal deveriam estar no mínimo acima de 1000, e idealmente acima de 4000, eram apenas 10 células a cada mililitro de sangue. Isso colocava nossa senhorinha em alto risco de pegar infecções.

Ela foi colocada em um quarto de isolamento, para que ficasse protegida do contato com outras pessoas. Levamos seu caso para discussão com um especialista em doenças do sangue, e o veredito dele foi um fardo: a doença de nossa vozinha era, sem qualquer dúvida, uma leucemia.

No terceiro dia de internamento, ela não era a mesma vozinha ativa e simpática. Estava mole, sonolenta, reclamando de frio. Apresentava-se com febre e outros sinais que nos mostraram estar com infecção na urina. Nossos esforços para evitar que se contaminasse não haviam surtido efeito. Corremos atrás de começar antibióticos e medicações que pudesse protegê-la, uma vez que o corpo dela não tinha células suficientes para salvá-la.

No quarto dia de internamento, um de seus olhos cresceu e inchou, por conta de um novo foco de infecção, agora na região da órbita. Novos antibióticos foram adicionados. A senhorinha já mal falava, referia dores em todo canto, falta de ar. Sequer nos permitia lembrar de nossa querida moça de 100 anos que nos fizera rir antes. Agora, apenas a preocupação nos envolvia. Procuramos a família para explicar a doença e a gravidade dela, e o que disseram foi "Nós já estamos preparados para o pior".

Mas nós não estávamos. Antes era difícil aceitar que ela pudesse ser tão saudável, e agora era terrível compreender que alguém tão saudável tivesse de repente desenvolvido um câncer. No dia seguinte, o brilho de seus olhos apagou de vez. Ela descansou daquele sofrimento e de uma vida que, provavelmente, não mais fazia jus a tudo que ela era. Apesar disso, deixou em nós a sensação que só vale a penar viver tantos anos se tentarmos ser tão mentalmente saudáveis e tão fisicamente felizes quanto ela foi.


RESPOSTA AO TEMPO é uma música cantada por Nana Caymmi

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

O BÊBADO E A EQUILIBRISTA

Eram jovens e felizes. Corriam o mundo em aventuras juntos, pouco preocupados com a ditadura militar que os cercava, ou com as dificuldades que havia com o início da vida adulta. Queriam se amar na praia, ouvindo as ondas e sob o luar.

Ela, uma moça simples mas apaixonada, daquelas que largariam tudo pelo amor. Ele, um rapaz bonito e galanteador, que dificilmente se envolveria em algo que durasse mais que seu dinheiro. Apesar de tão diferentes, se uniram em desejos opostos, mas explosivos. O que deveria ter sido uma semana, virou um mês, depois um ano. E, assim, nestas indas e vindas, se amaram por cinco anos. Até que ela cansou.

Ela decidiu que viver daquela forma, sem certeza de um futuro, não era sua melhor opção. Afastou-se dele, apesar dos sentimentos, e criou um caminho em que jamais o envolveu. Conheceu um novo homem. Casou, foi mãe. Construiu uma família serena, criou bem os filhos, que viraram sua fortaleza.

Ele seguiu a boemia. Continuou a se apaixonar por uma mulher diferente a cada dia, em festas, praias, noitadas. Chegava tarde demais para acordar no dia seguinte e estudar. Trabalhava quando não tinha outra escolha. Mal via os pais e, assim, soube apenas no dia seguinte quando o pai faleceu. A situação em casa ficou difícil: ele deveria ter assumido os cuidados com gastos, mas continuou a se divertir mais do que podia.

O tempo passou. Após 30 anos, o casamento dela desabou. Separou-se do marido, mas continuou morando com os filhos, com quem dividia sua felicidade. Já a vida dele estabilizou: viu-se obrigado a encontrar um emprego qualquer, e ali seguiu, com menor noitadas que antes.

Ele adoeceu. Teve tuberculose, mas foi tratado para tal. Emagreceu muito, ficou fraco. Melhorou com os remédios. Ela adoeceu. Entrou em depressão, mas foi tratada para tal. Perdeu peso, ficou mais sensível que jamais imaginou. Melhorou com o apoio dos filhos.

Numa noite, dessas em que nunca se imaginaria a ironia do destino, eles se reencontraram em uma festa. Os trinta anos não foram o suficiente para que deixassem de reconhecer o olhar um do outro. Ele se aproximou e, com o mesmo sorriso de galanteio, disse o quanto ela não havia mudado e o quanto estava bonita. Ela sentiu anos e anos de sentimentos guardados explodir. E, naquela mesma noite, relembraram por que amar sob o luar era inesquecível.

Aquela noite se tornou várias. Mas, enquanto na juventude era louvável apostar num amor sem freios, na meia-idade ela se encontrou diante de várias barreiras. A começar pelos filhos, que se colocaram contra, principalmente porque aquele homem não tinha objetivos de vida, não construíra nada.

Assim, se afastaram mais uma vez, embora continuassem a se falar por telefonemas saudosos. E também outra vez, ele adoeceu. Foi internado no meu hospital, onde descobrimos que era portador do vírus da imunodeficiência humana, e estava com várias doenças oportunistas por conta disso. Durante o tempo em que esteve internado, sendo tratado, ela reapareceu para visitá-lo. Revelou a nós todos que enfrentaria o mundo inteiro por aquele homem que, finalmente, aceitou que amava.

Quando ela descobriu a doença dele, porém, sentiu medo. Decidiu que merecia realizar exames. E confirmou: ela também estava infectada pelo HIV. Quando anunciei, ela quase chorou, mas controlou as emoções e perguntou "O que eu faço agora? Como vai ser minha vida?". Expliquei que, hoje, ter AIDS não significa interromper, mas reaprender a lidar com o próprio corpo. Ela perguntou então "E o amor, como lidar com o amor depois disso? Como vou me sentir capaz de amar alguém? Ninguém vai me querer mais". E declarou que, a partir daquele momento, estar perto do homem que sempre amou lhe causaria uma repulsa que ela jamais pudera imaginar.

Dias depois, ele faleceu. Ela chorou por tanto tempo quanto longas eram suas memórias. Ao final, declarou que, jamais, doença alguma diminuiria o amor que tivera por aquele homem. E que se trataria, ficaria saudável, seria feliz de novo, amaria de novo, em respeito ao quanto ele a ensinou a sorrir.


O BÊBADO E A EQUILIBRISTA é uma música de Aldir Blanc

quinta-feira, 24 de abril de 2014

CACHIMBO DA PAZ

Ele era um garoto muito especial. Amava bastante os pais e sempre quis orgulhar bastante a família. Como seu avô, o grande exemplo de todos, era militar da reserva, decidiu que seguiria seus passos. Dessa forma, alistou-se e, ao final de 2012, conseguiu êxito no que queria: entrou para o exército.

A alegria de todos teve tempo limite. Antes mesmo de o garoto concluir a fase de recruta militar, sua mãe caiu doente. Não demorou para que os médicos culpassem os anos de tabagismo. Por conta deles, ela estava gravemente enferma, com um câncer no pulmão, que foi tomando cada pouquinho de força. E, junto dela, o garoto e seu pai iam desabando. Até o momento em que, meses depois, a mãe faleceu.

A dor foi imensa. O garoto procurou formas de se livrar daquele sofrimento: bebeu muito, experimentou maconha, tragou cigarros. Passou noites em claro, na rua, usando qualquer desculpa para não voltar para casa e ver a o lado vazio da cama dos pais. Acabou que sua melhor fuga foi o trabalho. Tornou-se um soldado honroso, trabalhando sem descanso em prol da pátria.

Pensava na mãe em cada manhã e cada noite, e era a força do amor que ele e o pai sentiam, e que recebiam de alguma forma em troca, que lhe dava disposição para seguir adiante. Para buscar sempre o melhor de si e das pessoas. Não se deixou perder em vícios ou medos.

Numa tarde comum, após um acesso de tosse, seu pai cuspiu sangue. Procuraram a emergência onde eu trabalhava, e ali se suspeitou de tuberculose. O pai não tinha tanta tosse, nem tanta febre, mas a primeira coisa que todos imaginaram por conta da história, do raio X, da carga imensa de cigarros que o homem fumara. Ele realizou vários exames, e ao final percebemos que ele felizmente não tinha tuberculose.

Mas antes tivesse. Depois de uma tomografia e uma biópsia, nos demos conta que o que estava reservado para aquele pai era muito pior. E o que estava reservado para aquele garoto era muito mais doloroso. O pai também estava com câncer de pulmão, assim como a mãe tivera.

Difícil seria para aquele garoto de menos de 20 anos entender como uma coisa tão pequena, tão frágil, como o cigarro, poderia ser um assassino tão silencioso para sua família.



CACHIMBO DA PAZ é uma música de Gabriel, o Pensador

domingo, 4 de novembro de 2012

SONETO DA SEPARAÇÃO

Ao chegarmos na emergência, minha colega e eu fomos apresentados pelo colega do plantão anterior a uma paciente idosa, cercada por sua família. A paciente tinha sido colocada na área de maior gravidade do hospital, pois tinha chegado com falta de ar.

Logo conversamos com a família, e recebemos a explicação de que a paciente era portadora de câncer em fase terminal. Nas últimas horas vinha sem conversar, sonolenta e sem ar. Primeira coisa que fizemos foi saber qual o objetivo da família. Logo fomos informados por eles que não queriam medidas extremas. Estavam ali para dar conforto a ela, mas nada que prolongasse o sofrimento dela ou deles.

Decidimos em conjunto que ela não deveria ficar na área de pacientes graves, entre os intubados, morrendo e com dor. Colocamos a paciente na área de repouso, em uma cama isolada dos demais, e acompanhada pelos familiares. Liberamos para que ficasse mais de um familiar com ela, dada a situação excepcional.

Ao longo do plantão, íamos sempre checar para ver como a paciente estava. Tentamos encontrar razões para a piora súbita dela, formas de tentar reduzir a dor daquele momento e, talvez, permitir que ficasse bem, mesmo que nos momentos finais. De fato, ela tinha uma alteração orgânica ou outra. Era um sódio que estava muito alto ali, a respiração que estava muito ofegante aqui, um sangramentozinho acolá. Todos os problemas maiores foram contornados aos poucos, de forma que ela ficasse mais confortável.

A família não saiu do lado dela. Reverazam-se ao longo de todas as doze horas de nosso plantão, de forma que sempre havia duas pessoas ali com ela, abraçando, beijando, acalentando. Apesar de tudo, o nível de consciência da senhorinha em momento algum melhorou a ponto de conversar com eles. Curiosamente, a filha dela comentou comigo que, a caminho do hospital, a mãe teve sim um momento de claridade mental. Naquele instante em que acordou, a mãe olhou para a filha, abraçou ela e disse "Ah, minha menina, estou morrendo. Promete que ficará bem?".

Ao final do plantão, na hora final de nosso trabalho, a enfermeira me chamou para dizer que achava que a nossa velhinha estava parando. Fui vê-la e confirmei a suspeita. Sua respiração estava entrecortada, seu pulso ia ficando mais fraco a cada instante. Então, olhei para a filha e a sobrinha, que ali estavam, e avisei:
"Ela está partindo. Vamos deixá-la partir tranquila, ou querem que eu faça alguma coisa a mais?"

Em lágrimas, segurando as mãos da matriarca, as duas confirmaram o que queriam desde o início do plantão. Pediram que eu ficasse ali, mas que todos deixássemos ela descansar com aquela paz que tanto precisava. E assim foi. Aos poucos, a respiração da paciente foi ficando mais demorada, até o instante em que seu corpo ficou imóvel, sua boca ligeiramente entreaberta.

Ao contrário do que acontece com tantos pacientes com que lido nas emergências ao morrerem, a família não gritou, nem se desesperou. Choraram lágrimas silenciosas, apertaram as mãos emagrecidas e beijaram o rosto pálido. Declararam seu amor incondicional, acariciaram o rosto pela última vez e rezaram o descanso merecido.

Antes de eu me afastar para resolver as pendências do óbito, a filha me chamou para mostrar a face da senhorinha e disse
"Viu, doutor? Ela partiu em paz. A última coisa que ela fez antes de ir foi um sorriso. Ela sorriu para nós".

Embora eu não visse o sorriso, eu acreditei. Para quem conhecia a paciente há anos e anos, para quem convivera com todas as alegrias e dificuldades, ela sabia o que dizia. Então, eu simplesmente disse:
"É um sorriso de agradecimento, por tudo que vocês fizeram por ela".

E me afastei, enfim, para que a família pudesse ter seus momentos de despedida à vontade.



SONETO DA SEPARAÇÃO é uma música de Vinícius de Moraes

quarta-feira, 21 de março de 2012

PAI

Logo quando cheguei no plantão noturno, a enfermeira veio me informar sobre um paciente que estava no repouso, no leito 1. Era um idoso bastante simpático, em razoáveis condições clínicas, que tinha sido deixado pelo plantão diurno para reavaliação à noite.

Fui avaliá-lo. Embora estivesse estável, percebi que o paciente não evoluía completamente bem. Ele tinha uma provável pneumonia e, por conta dela, sua respiração estava ligeiramente acelerada. Fiz alguns cuidados iniciais, e logo avisei à enfermeira que iríamos transferi-lo para um hospital onde pudesse ser internado. Não demorou para que conseguíssemos uma vaga em um ótimo serviço de Olinda, e ficou certo que, tão logo a ambulância chegasse, nós o transferiríamos.

Continuei atendendo normalmente os outros pacientes da emergência. Após algum tempo, um senhor de meia idade pediu para falar comigo. Fui conversar com ele, e uma mulher mais nova, que se disseram filhos do idoso do leito 1. Eles explicaram que o hospital para o qual mandaríamos seu pai era distante de onde moravam, e que preferiam que o idoso fosse para casa, a ser internado lá. Pediram que eu internasse no hospital onde trabalho.

Expliquei à família que aquele hospital não fazia internamento à noite, portanto não teria como deixar o idoso ali. Então, o filho me pediu que liberasse o pai, e ele voltaria pela manhã para tentar ser internado se não estivesse melhor. Avisei ao homem dos riscos: o pai era idoso, estava com uma infecção respiratória que poderia se tornar grave se não recebesse os devidos cuidados. Mesmo com toda minha explicação, o filho estava reticente, enquanto a filha compreendeu o perigo de mandar o pai para casa.

Mesmo com o filho exigindo que liberasse o pai, eu fui firme: não deixaria o idoso sair do hospital, se não fosse para ser internado em algum lugar. Outros acompanhantes e a própria irmã conversaram com o homem, e ele acabou por aceitar o fato. Em menos de uma hora, conseguimos que a ambulância transferisse o idoso para o hospital maior, com um documento que eu escrevi ao médico de lá explicando a transferência.

Na semana seguinte, eu estava no meu rotineiro plantão no mesmo hospital, quando o porteiro bateu à porta do consultório e me avisou que um homem estava à minha procura. Assim que o paciente sendo atendido saiu, o homem entrou. Era o filho do idoso da semana anterior.

Logo quando sentou, nervoso, entristecido, ele me contou que o pai tinha falecido. Explicou que o pai foi para o hospital, onde se internou, mas veio a falecer no início da tarde seguinte. Mesmo com todos os cuidados, a infecção se agravou, como eu havia explicado a ele, e o pai não resistiu.

Ele passou em torno de dez minutos sentado à minha frente, desabafando. Não queria nada além disso: contar o que havia acontecido com o pai. Explicou que o pai era um homem forte, que lutara muito para criar ele e a irmã. Explicou a dificuldade que foi em pagar o caixão do pai, e que em dois anos teriam de tirar os ossos dele de lá e arranjar um jazigo. Mostrou o belo santinho que fizeram para a missa de sétimo dia dele.

Depois de toda a conversa, ele se levantou, agradeceu tudo que o hospital fez e pediu desculpas por tomar meu tempo de atendimento. Antes de sair, pegou um papel no bolso, desembrulhou e mostrou: era o documento da transferência que eu havia preenchido. Então, ele perguntou:

"Gostaria de ficar com alguma coisa pra lembrar de meu pai. Posso colocar esse papel num vidro pra pendurar na parede de casa?"

Sem acreditar, e até emocionado, eu obviamente deixei. Antes de ele sair, abracei o homem, pedi que rezasse sempre pelo pai. Ele se despediu e foi embora. Nesses momentos, difícil é você se concentrar depois para continuar atendendo...



PAI é uma música de Fábio Júnior

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

SUAVE VENENO

Fui chamado às pressas na emergência para avaliar uma garota de 16 anos, levada pela família, que parecia ter ingerido algum produto em grande quantidade, mas ninguém sabia qual. Ela estava um pouco sonolenta, mas de resto parecia bem. O grande problema é que se recusava a falar qualquer coisa. Abandonei os atendimentos habituais da emergência para passar alguns minutos com ela e tentar entender o que acontecia.

A garota estava sentada na maca, com lágrimas nos olhos e abraçando as pernas. Me apresentei como o médico que cuidaria dela e informei que estava ali para ajudá-la e não para criticá-la. Expliquei a situação em que ela se encontrava, tendo ingerido alguma coisa que não nos dizia, e dos riscos que corria em piorar e acabar morrendo, sem que pudéssemos fazer algo.

"Eu quero morrer" foram as palavras que ela me devolveu.

Sentei ao lado dela, deixei de lado o estetoscópio e perguntei o motivo daquela decisão, vinda de uma garota de 16 anos, com tantas coisas boas ainda para viver. Ela apenas continuou a chorar, em silêncio. Contei que os pais estavam do lado de fora, desesperados, e quis saber se era por conta deles. Ela me olhou com um ar de desprezo e disse:

"Minha vida é uma merda. Eu não presto pra nada. Então, é melhor morrer"

Nos encaramos por alguns segundinhos. Levantei e abri a porta da sala vermelha, onde ela estava. Do lado de fora, seus pais logo vieram, aflitos, perguntando como ela estava. Disse que esperassem um pouco e voltei a fechar a porta. Sentei ao lado dela e perguntei como uma pessoa inútil pode causar tanto desespero na família.

"Eles passaram o dia brigando comigo e com minha irmã. Eles não estão preocupados se vou morrer. Eu sou inútil, e quero ao menos poder decidir sobre minha morte"

Compreendendo a situação, eu ponderei:

"Você acha que vai resolver alguma coisa se morrer? Se você acha que é inútil, morrer não vai te tornar uma pessoa mais útil. Morrer vai cortar qualquer chance de você se sentir importante. Apenas viva você vai ter a oportunidade de crescer, de melhorar, de sentir que é útil. Mas, pra isso, eu preciso que você me diga o que tomou"

Ela não repondeu, olhando para o chão. Sem saída, eu disse:

"Eles estão preocupados com você porque te amam. Você tomou uma decisão muito ruim, baseada numa idéia boba de que não gostam de você e de que você não importa para eles. Só que você está errada. E, para garantir que você perceba isso, teremos que fazer algumas coisas desagradáveis e dolorosas. Mas tudo pelo seu bem"

Quando estava para sair da sala vermelha, ela murmurou:

"Você pode fazer o que quiser, pode me salvar... Não tem problema. Amanhã eu tento me matar de novo"

Orientei minha equipe a usar um sedativo nela, para que não atrapalhasse. Fizemos lavagem gástrica e utlizamos carvão ativado para evitar a ingestão do produto. Logo quando começamos a lavagem gástrica, o pai veio nervoso me explicar que uma tia encontrou dois frascos vazios de veneno de carrapato na mochila dela. De fato, com a lavagem gástrica conseguimos tirar um volume enorme de veneno do estômago da garota.

Depois dos procedimentos iniciais, mantivemos a menina na sala de recuperação, sob vigilância constante. Ela não chegou a dormir por completo, mas ficou bem mais calma e colaborativa. Algumas horas depois do atendimento inicial, fui reavaliá-la. Ela estava desperta e ainda tinha lágrimas nos olhos.

Mais uma vez, sentei ao seu lado. Ela permaneceu em silêncio. Eu então falei:

"A grande verdade é que você não queria morrer. Quem quer morrer não toma dois vidros de veneno e corre pra família pra dizer o que fez. A pessoa se tranca num banheiro, bebe veneno e se esconde do mundo pra morrer na solidão. O que você queria era chamar a atenção de seus pais, mostrar o que eles podem perder se não mudarem. Nesse ponto, você conseguiu. Você vai sair viva disso, vai ficar bem e não fará mais nada, porque sabe que conseguiu"

A garota começou a chorar de verdade. Segurei a mão dela por alguns segundos enquanto chorava e, quando se acalmou mais, a deixei descansar na sala de recuperação, com a companhia da mãe. Deixei o plantão, na manhã seguinte, orientando os colegas a tentarem transferi-la para receber cuidados de psiquiatra, pela possibilidade de repetir o ato. Soube, contudo, que ela acabou recebendo alta ainda naquela manhã, a pedido dos pais, que garantiram maiores cuidados a partir de então.

Passei uma semana inteira nervoso com a chance de receber uma notícia ruim sobre a garota. No plantão seguinte, porém, me surpreendi com a presença da mãe dela no plant
ão de emergência, que tinha ido se consultar com a pressão alta.

Ao me ver, ela agradeceu bastante tudo que havia sido feito e explicou que a garota estava bem, mais animada e já havia voltado para as ativididades habituais. E me contou que ela prometera não fazer mais aquilo depois de uma longa conversa com os pais. Ela prometeu um dia levar a garota para que eu a visse bem e em paz. Até hoje não o fez, mas tenho certeza que a garota não repetiu mais esse erro.


SUAVE VENENO é uma música de Nana Caymmi

sábado, 19 de novembro de 2011

JARDIM DA INOCÊNCIA

Uma garota de 9 anos chegou à emergência pediátrica sentindo fortes dores na barriga, que haviam começado há poucas horas. Era trazida pela mãe e pelo padrasto, que acreditavam se tratar de alguma comida estragada causando infecção intestinal. Mas ela não tinha diarreia.

Depois dos cuidados iniciais, quando estabilizamos a garota, nossa preocupação passou a ser entender o que estava acontecendo. Pedimos um exame de sangue, que não veio com alterações. Questionamos sobre diarréia, prisão de ventre, ardência na urina, entre tantas outras coisas. De tudo, além da dor, a garota só estava vomitando bastante.

Concordamos de início com o pensamento da família sobre o alimento estragado. Medicamos para aliviar as dores e mantivemos em observação. O problema é que, duas horas depois, a dor não havia aliviado em nada, e até tinha piorado. A garota gemia bastante, reclamando que o "pé da barriga" estava a ponto de explodir. Então, questionamos à mãe se a garota já havia menstruado, e ela não soube responder. Pensando na chance de ser algo ginecológico, decidimos realizar um exame superficial.

No momento do exame ginecológico, a garota ficou agitada, sem querer retirar a calcinha. Após muitos pedidos, e com a companhia carinhosa da mãe, ela aceitou expor sua intimidade. A maior surpresa de todos foi quando apareceu sangue na calcinha e na vagina. A preocupação geral foi imediatada. A médica tentou continuar o exame, mas a garota voltou a atrapalhar, nervosa, e preferimos parar.

Submetemos a menina a uma ultrassonografia. Quando o resultado chegou, todos foram nocauteados de surpresa. A menina estava grávida de dois meses. O que explicava tanta dor era o fato de ser uma gestação tubária. O embrião tinha se instalado em uma das trompas, o que inviabilizaria a gravidez. Por sorte, a trompa ainda não havia rompido, do contrário a garota estaria numa situação mais grave.

Ela foi submetida a uma cirurgia, com retirada da trompa e do feto ectópico. Após resolvida a situação de saúde da menina, ficou a grande questão: quem havia feito isso. O primeiro pensamento, sem dúvida, recaiu sobre o padrasto. Ao saberem do que a menina tinha, inclusive, a própria mãe desconfiou do marido. O homem, porém, afirmou jamais ter tocado na garota com esse tipo de intenção. Disse que a amava como filha.

Mesmo sob toda a negativa dele, o padrasto foi levado para maiores esclarecimentos e permaneceu como principal suspeito. O pai da menina, que não morava com ela, também foi chamado para prestar depoimento. Não conseguiram definir com exatidão quem deveria ser o culpado,  continuaram acreditando no envolvimento do padrasto.

A menina permanecera quieta sobre isso o tempo todo. Não falava nada quando questionada, fingia que nada havia acontecido. Continuava a tratar bem o pai e o padrasto. No dia da alta, porém, ela entrou em crise de histeria e se recusou a deixar o o hospital. A mãe não entendeu o motivo da reação. A garota não parava de gritar e dizer que queria ficar no hospital.

Por fim, a garota disse para a mãe que, se fosse para casa, o homem estaria lá para esperá-la. Naquele momento, a mãe se deu conta. Um de seus vizinhos, pai de duas crianças, era muito carinhoso com a menina, sempre aparecia na casa para visitá-los. E já tinha acontecido de ficar tomando conta da filha duas ou três vezes. Só podia ser ele.

Quando a polícia interrogou o homem, ele negou. Mas, depois que usaram o truque de fingir que a garota havia morrido por conta da gravidez, o vizinho não suportou a culpa e admitiu o que havia feito. Tinha sido ele quem abusara sexualmente da garota. Ele foi imediatamente acusado do crime, e até seus filhos tiveram de passar por exames médicos para certificar que não sofriam também abuso.

A menina continuou reticente de voltar para casa, mas recebeu alta hospitalar. Apesar de fisicamente bem, com a doença orgânica resolvida, seria difícil curar o tamanho dano que havia sido provocado em sua mente.


JARDIM DA INOCÊNCIA é uma música de Paulo César Baruk

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

DEUS PROMETEU

Aquele homem tinha o visual de um ermitão. Mantinha sempre uma barba longa, usava roupas desajeitadas e sujas e só andava com uma bengala pra apoiar sua dor. Era por essa dor que vinha diária e incansavelmente à emergência, apenas para receber medicamentos que controlassem o que sentia. E, de acordo com o que ele mesmo resmungava, nada aliviava por completo.

Não tinha pressão alta, diabete ou qualquer outra coisa, a não ser bastantes varizes nas pernas, como boa parte da população. Em um desafortunado dia, uma das maiores varizes de sua perna resolveu estourar. Ele foi operado e a situação parecia controlada, mas seguiu com infecção no local da variz e erisipela. Após o tratamento da infecção, restou para ele uma grande cicatriz na forma de uma úlcera varicosa.

Além do problema estético, essa úlcera lhe rendeu uma dor crônica, diária, que não aliviava com quase nenhum analgésico. Por conta disso, ia diariamente à mesma emergência para exigir analgesia, que lhe dava alívio por algumas horas, o bastante para dormir. E, no dia seguinte, voltava para mais. Não demorou a ser conhecido por todos do hospital. E, nesse caminho, logo passou a ser considerado como um viciado, não apenas pela forma como se vestia, mas pelas exigências grosseiras de medicamentos fortes.

Sempre que chegava um novo médico na emergência, a situação se repetia: o médico se recusava a passar de cara análgesicos que viciam, e o homem irritado gritava que não era um paciente qualquer. Independente de ser ou não um viciado, os medicamentos que aliviavam um pouco da dor eram prescritos, e ele sempre saiu satisfeito.

Nunca brigamos, e ele sempre me tratou bem. Geralmente quando chegava na emergência do meu plantão, ia direto me procurar pra eu lhe passar logo as medicações. No papel de médico, nunca considerei justo julgar se a dor era real ou supervalorizada, afinal só ele era capaz de senti-la. E não havia como avaliar efeito placebo pois nenhum remédio o fazia melhorar por completo.

Certa manhã, quando ele chegou para a dose diária de opiáceos, estava mais entristecido que o habitual. Questionei isso, e ele explicou que a dor estava insuportável, e que era um martírio viver daquela forma, com uma dor que nunca teria fim. E falou o quanto era ruim ter que estar num hospital diariamente, ainda mais encarando os olhares duvidosos dos profissionais.

Quando se levantou para ir embora, ele me encarou com um olhar franco e disse:

"Um sobrinho meu de 9 anos comparou minha vida com a de um personagem grego. Prometeus. Aquele que foi acorrentado e exposto aos corvos, que comiam todo dia um pedaço do seu fígado. Mas o maldito do fígado regenerava diariamente, e lá vinham de novo os corvos pra comer mais, lhe causando uma dor eterna. Eu estou aqui, doutor, apenas para assustar meus corvos"

Eu nunca mais duvidei da dor que ele sentia.





DEUS PROMETEU é uma música de Quatro Por Um

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A CURA

Durante a noite, foi internada pela emergência pediátrica uma garotinha com história de infecções urinárias de repetição. De acordo com a mãe, a garota estava apresentando uma nova crise, com urina de cheiro ruim, dores abdominais, ardência para urinar. Embora fosse bastante quieta e quase não falasse, a menina estava bem.

Já era sua oitava admissão naquele hospital, para tratamento de infecção urinária. Só naquele ano, já era a terceira. Foi solicitada uma cultura de urina, que mostrou vários germes incomuns na infecção urinária, preocupando bastante a equipe pediátrica. Logo se decidiu investigar o que estaria causando essas infecções de repetição.

A primeira hipótese foi de alguma estrutura malformada nas vias de saída da urina. A garota foi submetida a exames, que comprovaram ser completamente normal. Enquanto isso, o tratamento com o antibiótico estava sendo realizado. Após o quinto dia do antibiótico, foi realizada uma nova cultura de urina. Para nossa surpresa, as bactérias continuavam lá, em grande quantidade.

Pensamos que algo estava errado, talvez na hora de coletar a urina. Foi realizada mais outra cultura de urina, que mostrou o mesmo resultado: várias bactérias, incomuns em infecções urinárias, atacando a bexiga e os rins da menina. Modificamos o antibiótico, já que o primeiro não demonstrou resultado.

No terceiro dia do novo tratamento, foi realizada outra cultura de urina. As estranhas bactérias que apareceram antes ainda estavam lá, como se nenhum tratamento tivesse sido feito. A equipe se reuniu para discutir o que poderia estar acontecendo. A opinião de todos era de que estava acontecendo um erro na coleta da urina, de alguma forma, e estava havendo contaminação.

Decidimos acompanhar a coleta de uma nova cultura de urina. Fui avaliar a coleta, que era realizada com um potinho. A enfermeira responsável fez como das vezes anteriores: entregou o potinho para a mãe, que levava a garota para o banheiro e colhia, de acordo com as orientações. Tudo parecia sem erros. E outra vez a urina estava infectada pelas bactérias.

Tentamos discutir com a mãe o que poderia estar acontecendo, e ela firme em dizer que a filha sempre passava por essa situação. Que não era novidade, e que a equipe estava preocupada porque não conseguia tratar a menina. A agressividade da familiar acabou levantando uma suspeita reversa. Conversei com a enfermeira e pedi que ela mesma realizasse a coleta da urina, sem a interferência materna. Assisti à coleta da urina, feita de forma impecável pela enfermeira.

E a cultura de urina veio sem qualquer bactéria. Para completar nossa suspeita do que estava acontecendo, fingimos pedir uma nova cultura de urina no dia seguinte, para a mãe colher. Durante a coleta, entramos no banheiro e flagramos o exato momento em que a mãe cuspia dentro da urina e mexia com o próprio dedo.

O diagnóstico final foi de uma situação clínica conhecida como Munchausen por Procuração, que ocorre quando um pai ou acompanhante reproduz no filho uma doença que não existe, algumas vezes até alterando o resultado de seus exames, de forma que o filho seja internado ou receba cuidados médicos para a doença inexistente. Existem até relatos de cirurgias feitas em crianças por conta disso.

No caso da menina, ela recebeu alta no mesmo dia, sem qualquer tratamento, e foi imediatamente encaminhada para os cuidados do serviço social, enquanto a mãe era avaliada pela psiquiatria.


A CURA é uma música de Lulu Santos

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

FORÇA ESTRANHA

Ele chegou a primeira vez na emergência como um típico caso de pneumonia. Estava tossindo horrores, sem respirar direito. Tinha fumado a vida toda, e agora o pulmão reclamava de tanta nicotina acumulada. Foi internado por seus oitenta e tantos anos, recebeu oxigênio, tomou antibiótico, e logo estava um pouco melhor. Um pouco.

Também tinha perdido peso. Na tosse vinha um pouco de sangue. Uma investigação começou para definir melhor o que acontecia. Não tardou em mostrar uma grande massa no pulmão, depois revelada como um câncer já bastante avançado.

Mesmo sendo um câncer muito grave, a decisão do oncologista foi investir em uma tentativa de cura ou, pelo menos, controlar a doença. Foram iniciadas sessões de quimioterapia verdadeiramente devastadores, com o intuito de extirpar qualquer célula cancerosa do corpo daquele senhor.

Logo de início, o resultado foi terrível. Além do óbvio desgaste emocional, o corpo trouxe todas as piores reclamações - cabelos sumiram, o peso desabou, vômitos eram constante. Ainda assim, a força de vontade do homem só não era mais inabalável que a fé e o amor de sua família.

Ao longo da quimioterapia, houve duas outras internações por episódios de falta de ar. Apesar disso, a melhora do estado geral dele era evidente, o que animou a todos, em especial os familiares. Em sua última alta, ele sorria animadamente, agradecia à equipe médica e prometia que ia combater a doença com todas as suas capacidades.

Voltou ao hospital um mês depois. A família explicou que ele estava cansando como nunca e, o que era mais preocupante, havia desistido do tratamento. Não aguentava mais as sessões de quimioterapia e implorou que os familiares simplesmente o deixassem morrer sem sofrer com aqueles remédios que só lhe faziam mal. Queria morrer em casa.

Mas isso não aconteceu. Em uma semana, teve de ser internado de urgência. Mal conseguia respirar. A família estava em pânico e implorando que fizéssemos de tudo para salvar o pai. Logo na chegada, conseguimos reverter o quadro com máscara de oxigênio, mas ele deteriorava a cada hora. Então, surgiu o maior dilema médico - até onde investir no paciente?

Ele era um paciente portador de uma doença terminal. Em teoria, não havia sentido investir demais em um paciente como ele. De que adiantaria intubar, usar medicamentos de última geração, ressuscitar em caso de parada, se apenas estaríamos prolongando seu sofrimento? Ainda assim, a nova lei médica exige a participação do paciente e da família nas decisões, e bom senso do profissional pede o mesmo.

No dia seguinte, seu quadro obviamente era pior. Ele sequer estava acordado, mantendo-se em um estado de respiração mínima. A equipe decidiu conversar com a família para tomar uma decisão em conjunto. Havia opções de conduta a se tomar. O paciente poderia ser levado para UTI ou poderia ser deixado na enfermaria junto da família. Poderia ser intubado, ressuscitado em caso de parada; ou poderia ser dado apenas um suporte que aliviasse sua condição até a inevitável hora.

A família, em óbvias lágrimas desesperadas, pediu que não prolongássemos o tempo dele, que não forçássemos seu corpo a ir além dos próprios limites do sofrimento. Por fim, pediram que nós o levássemos para a UTI, pois não se encontravam mais em condições de ajudar o pai, estavam completamente arruinados fisicamente e devastados emocionalmente para lidar com a situação.

Colocamos o paciente na UTI no início da manhã. Ele veio a falecer poucas horas depois, com todo suporte que lhe era possível ser dado, sem medidas extremas. Morreu de forma tranquila, sem dor e com o mínimo de sofrimento que a doença permitia.

A medicina existe com vários propósitos. Alguns acreditam que servimos para salvar a vida das pessoas, outras acham que existimos para curar doenças, e poucos apostam na nossa capacidade de preveni-las.

Mas existem momentos em que o grande trabalho da equipe médica, e a verdadeira salvação humana, residem apenas em aliviar o sofrimento.


FORÇA ESTRANHA é uma música de Caetano Veloso

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

JUVENTUDE TRANSVIADA

Uma gestante de 15 anos mantinha consultas regulares com a enfermeira de seu posto de saúde, para realização do pré-natal, sem maiores problemas. Era sua primeira gravidez, e ela se tratava de uma mãe solteira. A previsão inicial sugeriu que a gravidez tinha se iniciado no mês de março.

Em determinada consulta pré-natal, ela levou o ultrassom feito para avaliar o bebê e, aproveitando o momento, questionou:

"Queria ter certeza de quando fiquei grávida. Minha mãe e eu achamos que foi em fevereiro, e não em março"

Ela explicou que tinha se enganado antes, e em feveiro ainda tinha menstruação. A enfermeira, habilidosa, decidiu recalcular, sob o aviso:

"Isso faz uma diferença grande pra mim, doutora"

Enquanto examinava o ultrassom, a enfermeira questionou o motivo.

"A senhora sabe como é mulher solteira... Um dia fica com um. Outro dia, fica com outro. O namorado que eu tinha em fevereiro é diferente do que tinha em março. E eu não estou mais com nenhum dos dois"

Compreendendo a situação, a enfermeira perguntou:

"O namorado de março soube da gravidez?"

"Soube, e eu disse que era dele"

A enfermeira terminou de examinar a jovem mãe. E, diante das características da gravidez e do que mostrava o ultrassom, avisou:

"É quase certo que você tenha engravidado mesmo em fevereiro"

Preocupada, a garota se questionou do que fazer.

"Agora, você vai ter que avisar ao namorado de fevereiro que ele deve ser o verdadeiro pai. Você não precisa voltar a namorar com ele, mas ele tem que participar da gravidez"

"E o que eu faço com o de março?"

"Ele vai ter que entender a situação..."

Quando a garota saiu do consultório, deixou na enfermeira a dúvida se realmente contaria a verdade sobre a gravidez para alguém.



JUVENTUDE TRANSVIADA é uma música de Luiz Melodia
História gentilmente cedida por Lívia Barbosa

terça-feira, 30 de agosto de 2011

PRA DIZER ADEUS

Um paciente estava internado na UTI há quase oito semanas, por conta de uma infecção respiratória, que o obrigou inclusive a ficar intubado por 20 dias, sendo depois feita traqueostomia (colocar um tubo na garganta por meio do pescoço). Ele pegava infecção atrás de infecção, cada vez combatendo e vencendo, mas adquirindo outra logo após, até um ponto em que seu corpo começou a ceder.

Ele estava tão abatido por conta da doença, que nem tinha forças para falar ou respirar direito, sendo mantido sedado com medicações. E, embora a sedação não fosse tão forte, ele continuava sonolento, sem fazer contato com ninguém, como se estivesse em coma. A família já estava desesperançosa de sequer se despedir antes que o homem pudesse partir.

Certa tarde em que eu estava de plantão na UTI, a filha dele me contou sobre como o pai era forte, o quanto havia lutado na vida para formar os cinco filhos (ela, por exemplo, é advogada), mesmo sendo um homem que nasceu no sertão. Então, levou para que eu visse uma homenagem que os filhos e a mãe haviam feito para ele alguns meses antes, quando ainda estava completamente são.

O texto está na imagem, em anexo. Era um poema de Mário Quintana, que os filhos haviam colocado num formato bonito para homenageá-lo em vida. A advogada me contou, com um sorriso triste, que, sem sentimentos como era, o pai nem deu tanta atenção àquela homenagem. Mas significava muito para ela e os irmãos.

De fato, o poema era bonito. Após o horário da visita, quando tudo na UTI estava tranquilo, fui até o leito daquele paciente. Falei a ele, mesmo sem ter retorno algum, sobre a homenagem que a filha havia feito. Disse que ela tinha me dado o texto, então reli o poema que algum dia ele havia conhecido.

Uns 30 minutos depois, voltei ao leito para reavaliá-lo. Minha surpresa maior foi encontrar lágrimas em suas pálpebras. No dia seguinte, o paciente estava tão bem, que conseguimos tirá-lo do aparelho de ventilação mecânica. Como ele estava respirando sozinho, foi possível tirar a sedação por completo.

Na hora da visita, a família o encontrou sem sedação, respirando sozinho e, o que era incrível, ele estava ligeiramente acordado. Conseguiu até responder a perguntas dos familiares balançando a cabeça, olhou cada filho e esposa, e ainda esboçou um sorriso. Disse pra mim que estava bem e não sentia dor alguma.

Três dias após, o paciente infelizmente faleceu. Durante a noite, do nada, seu coração foi desacelerando até parar por completo. Depois de tanta luta, depois de tanto sofrimento, de certa forma ele descansou.

Existe uma lenda na medicina que diz que um paciente tem uma melhora importante dias antes de falecer. Alguns chamam isso de "melhora da morte". Outros acreditam que é uma forma de se despedir desse mundo. Qual seja a razão para tal, ao menos esse meu paciente teve a chance de ouvir da família o quanto o amavam por uma última vez.


PRA DIZER ADEUS é uma música de Titãs

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

PURO SANGUE

Um homem de 30 e poucos anos sofreu um acidente de moto, e acabou sendo levado inconsciente para um hospital de trauma, recebendo o devido atendimento inicial. Por sorte, não teve maiores problemas, e foi mantido com soro para hidratar e remédios para a dor.

Algumas horas depois de chegar ao hospital, o soro foi retirado de seu braço, mas não foi realizada compressão da veia, de forma que no local onde estava o soro começou a sangrar levemente. Em pouco tempo, o homem despertou sozinho e logo viu que estava deitado perto de dois outros pacientes. Não demorou também a notar o braço ensanguentado.

Os dois outros homens estavam acordados. Um, mais jovem, tinha sofrido uma fratura na perna. O outro, de meia idade, estava internado por qualquer outro motivo. O rapaz aproveitou, portanto, para saber o que tinha acontecido, pois não lembrava de nada. Perguntou o que estava fazendo no hospital e por que o braço cheio de sangue.

"Eles tiraram sangue do seu braço" explicou o homem de meia idade. "Eles fazem isso aqui. Tiram sangue e depois lhe pagam alguma coisa"

Dizendo isso, o homem retirou do bolso uma nota de cinquenta reais e mostrou, dizendo que tinha sido o pagamento. O acidentado na mesma hora se animou e disse que também queria o dinheiro dele. Começou a chamar todos os funcionários do hospital que passavam por perto, sempre questionando do dinheiro. Até que uma enfermeira resolveu parar para acudir o homem.

"Senhor, isso é alguma brincadeira. Ninguém recebe dinheiro aqui, não"

Depois que a enfermeira se afastou, o acidentado, confuso, olhou para o fraturado e perguntou:

"Ele está mentindo mesmo?"

E o fraturado respondeu:

"Claro que não. Também me pagaram"

E tirou do bolso um cheque. Aquilo foi o suficiente para o acidentado ficar louco, gritando para todos os lados que também queria receber o pagamento dele, que ninguém ia roubar seu sangue sem lhe pagar. A agitação foi tamanha, que o homem acabou tendo de ser amarrado à maca em que estava e, assim, passou todo o resto da noite: amarrado, imobilizado, mas gritando que exigia o dinheiro do sangue que havia dado.



PURO SANGUE é uma música de Charlie Brown Jr.

domingo, 7 de agosto de 2011

BAGATELAS

Algumas situações reais contadas como rapidinhas...

1.
Paciente - Doutor, desculpe vir ao hospital às 3h, mas é que eu estou com um problema.
Médico - O que houve?
Paciente - Já faz três dias que estou tendo sonhos.

2.
Às 2h da manhã, chega uma mulher de meia-idade à emergência.
Médico - Qual o problema, senhora?
Paciente - Eu estava dormindo tranquilamente. Só que eu perdi meu sono e queria entender o que houve.

3.
O homem acaba de ser medicado para hipertensão. Após explicações médicas sobre os remédios, vem a dúvida.
Paciente - Não estou entendendo. Você me pede pra tomar esse remédio enorme inteiro e o pequeno só a metade. Qual efeito esses remédios vão fazer?

4.
O médico discute sobre o diabetes descontrolado do paciente.
Médico - Senhor, sua glicose está em 500! Não está seguindo a dieta?
Paciente - Eu não como muito açúcar.
Médico - Mas a glicose não existe só em açúcar. Tem também a glicose das massas: do pão, do cuscuz, do bolo, do arroz, do macarrão.
Paciente - Como vinte pães por dia, dez de manhã e dez à noite. O problema deve ser esse, né?

5.
Paciente acaba de entrar no consultório da emergência.
Médico - Senhor, o que você tem?
Paciente - Você é o médico. Espero que você me diga.

6.
Consulta de rotina na pediatria.
Médico - Mãe, o que o garoto come no almoço?
Mãe - O normal. Arroz, feijão, carne...
Filho - COXINHA!

7.
Atendimento de emergência de uma garota de 15 anos com sangramento vaginal.
Médico - Senhora... Sua filha está grávida.
Mãe - Mas como, se ela nem mesmo menstruou!

8.
A pressão da paciente na chegada à emergência estava 200x140 mmHg.
Médico - Senhora! Você vem tomando as medicações certinho?
Paciente - Eu parei de tomar os remédios.
Médico - Por quê?
Paciente - Minha pressão controlou. Aí minha vizinha disse que podia parar e ficar tomando chá, que resolvia.



BAGATELAS é uma música de Frejat
(Agradecimentos ao médico THIAGO CORREIA pelas sugestões)

domingo, 31 de julho de 2011

NOS BAILES DA VIDA

Às 3h chegou à emergência um homem de 65 anos, sonolento, trazido por três mulheres de idades parecidas. Uma das mulheres se apresentou como companheira dele, e o levou para ser atendido, enquanto as outras esperaram fora do hospital.

A mulher explicou que o homem estava em uma danceteria com as três e, em certo momento, começou a sentir um mal-estar. Depois, quase desmaiou, quando então elas decidiram levá-lo para a emergência. A pressão estava muito baixa, o coração bem lento. Tomamos as medidas para acelerar mais o coração e aumentar a pressão.

Apesar de tudo que fizemos, o paciente continuava sonolento. Decidimos realizar um exame do coração, que veio com alterações. A conduta foi enviar o paciente para ser avaliado pelo cardiologista. Chamamos as três mulheres para explicar a situação e tomarmos as medidas para transferir o homem. Logo de cara, elas se desesperaram.

A mulher que entrara com o homem revelou que não era sua esposa. Disse que ela e uma das outras eram companheiras durante a semana, enquanto a verdadeira esposa e os filhos dele deveriam estar em casa, dormindo. Apenas a terceira não tinha relações com ele, era irmã de uma das duas, e vizinha do homem.

A preocupação delas é que, acompanhando o homem para o cardiologista, alguém decidisse contatar a família dele, e assim a esposa soubesse que ele estava com as três. Queriam evitar essa descoberta ao máximo. Após muita discussão, ficou decidido que a vizinha acompanharia o homem ao cardiologista, enquanto as amantes voltariam para casa, à espera de notícias.

Por volta das 6h, a vizinha voltou ao hospital sozinha, para nos contar que o diagnóstico final do homem foi a suspeita que tivemos - infarto. Ou seja, o homem infartou durante a noite de diversão com as três mulheres. Ela explicou que ele já estava bem, mas implorando para ninguém ligar para a tal esposa.

Em seguida, a vizinha fez a revelação final dessa aventura. Nenhuma das três outras mulheres sabiam, mas ela mantinha em segredo um caso com ele há quase uma década. Era a amante das amantes.




NOS BAILES DA VIDA é uma música de Fernando Brant

sábado, 23 de julho de 2011

ROLETA RUSSA

Chegaram à emergência um casal e outra mulher acompanhando. Todos jovens. Era madrugada, já passava das duas da manhã. A mulher era irmã da namorada. Logo de cara percebemos que a tal namorada estava com o rosto machucado. O namorado, abraçado a ela, estava muito ansioso, preocupado, explicou que a garota havia sido vítima de assalto e agressão física.

Os machucados não eram tão extensos. Além de um grande hematoma em um olho, tinha um corte na bochecha, por conta de um murro que havia levado. Cuidados dos ferimentos, suturamos esse corte e a deixamos em observação por algumas horas, já que havia sido vítima de trauma na cabeça. A irmã da garota nada falava, apenas acompanhava ela e o marido. A polícia chegou pouco depois; colheu o relato do casal e saiu da emergência em uns 10 minutos.

O hospital só permitia um acompanhante por paciente. A irmã dela, contudo, nos pediu para ficar também acompanhando. Como era madrugada, portanto a emergência estava vazia, acatei o pedido e deixei namorado e irmã com a vítima. Em torno de meia hora depois, pedi que uma enfermeira trocasse o soro da paciente. Logo após ela ir, a irmã da garota veio do repouso, um pouco transtornada, e foi para o lado de fora do hospital.

Quando voltou, a enfermeira contou que tinha visto uma conversa muito estranha entre o rapaz e a irmã. Ela dizia que não o deixaria a sós com a esposa, e ele exigiu que ela os deixasse sozinhos, que não teria problema. Então avisou: "Não abra a boca. Se você contar alguma coisa, vai se ver comigo". Logo em seguida, a viatura da polícia retornou.

Um policial me explicou que não tinha acreditado na história contada e foi até o local onde eles relataram ter acontecido a agressão, para averiguar. Havia um bar perto do local, e todos que estavam no bar contaram a verdadeira versão do caso - o próprio namorado havia batido na garota, após uma discussão motivada por ciúmes.

Os policiais chamaram o rapaz para conversar, e logo de cara contaram o que haviam descobertado. Obviamente, o garoto negou tudo, disse que nunca bateria na namorada, que era apaixonado e casaria com ela, e não teria motivos para bater na mulher que um dia seria sua esposa. Os policiais então foram conversar com a própria vítima, para ouvir sua versão.

A vítima confirmou todo o relato do namorado. Disse que havia sido assaltada, que os bandidos a agrediram, e ainda disse que nunca o namorado faria alguma coisa dessas com ela. Assim, os policiais, a contragosto, tiveram que aceitar essa versão, mesmo relatando a certeza de quem era o culpado.



ROLETA RUSSA é uma música de Adriana Calcanhoto

quarta-feira, 15 de junho de 2011

DENTRO DE MIM MORA UM ANJO

Um jovem casal de militares recebeu a maravilhosa notícia de que estavam grávidos. O processo de planejamento foi imediato e natural. Em poucas semanas, arrumaram parte de um enxoval, avaliaram os custos de reformar um dos quartos e procuraram o berço mais bonito.

Na época certa, a mãe realizou uma ultrassonografia para ver como estava o filho. E então veio a notícia ruim. Havia alguma coisa de estranho com a criança. Foram feitos alguns estudos, pesquisaram várias possíveis doenças no feto, e acabaram por definir o que tinha. Grande parte do cérebro da criança não existia. Não era o que se chama de anencefalia, porque havia ainda uma parte da massa encefálica, mas o volume era muito pequeno. A equipe médica logo de cara acreditou inclusive que seria incompatível com a vida.

A família desabou. A mãe, principalmente, entrou num progressivo estado de depressão, que só fazia piorar a cada semana. A sugestão médica inicial foi de que a gravidez deveria ser interrompida. O pai foi a favor do procedimento e de solicitar juridicamente o pedido de aborto, mas a mãe foi contra. Apesar de saber que as chances de vida eram mínimas ou nulas, queria seguir com a gravidez até o fim, e o pai acabou por concordar.

A gravidez prosseguiu sem grandes atropelos. Ao final do sétimo mês de gestação, nasceu prematuramente uma menina, que seria perfeita se não lhe faltassem quase 70% da massa cerebral. A primeira semana foi de tensão constante, e a equipe médica se revezou para manter a garota viva, necessitando de ajuda de aparelhos para conseguir respirar.

Mas ela ultrapassou a expectativa negativa. Mesmo sem boa parte do cérebro, mesmo com o pulmão pouco formado, sobreviveu à primeira semana de vida com força o bastante para atravessar muitas outras lutas. A garota não teve como deixar o hospital em momento algum. E, depois de estar completamente estabilizada, embora ainda ligada a máquinas para conseguir manter as funções de alguns órgãos, teve condições de sair da UTI e ficar em um apartamento dentro do hospital, onde poderia receber maiores cuidados da família.

Não conseguia deglutir o leite da mãe, sendo alimentada por sonda. Não conseguia se comunicar ou abrir os olhos ou emitir qualquer ruído, mas parecia sentir quando havia o toque dos pais, pois o corpo parava de se agitar e dormia tranquila.

A garotinha tem hoje quase quatro anos. Contra todas as possibilidades, continua viva e forte, crescendo no descompasso de seu organismo, ainda alimentada por sonda, ainda respirando por máquinas... Ainda amada pelos pais, que diariamente estão ali ao seu lado, com o mesmo toque de quando nascera e a mesma segurança do dia em que decidiram não parar a gestação.



DENTRO DE MIM MORA UM ANJO é uma música de Sueli Costa

terça-feira, 7 de junho de 2011

TENHO SEDE

Médico é acordado às duas da manhã para atender um paciente que chegou na emergência.
Quando entrou no consultório, deparou-se com um homem que parecia completamente sadio.

Médico: Boa noite. O que o senhor tem?
Paciente: Doutor... Eu vim porque estou com sede.
M: ... Com sede?
P: Sim, muita sede!
M: Desde quando o senhor está assim?
P: Foi agora de noite que atacou mais.
M: O senhor não bebeu água durante o dia, não?
P: Não... Trabalhei muito, só parei tarde. Esqueci de beber água.
M: E por que não bebeu agora?
P: Fiquei com medo de beber e ter alguma coisa.


...
[fatos reais]




TENHO SEDE é uma música de Gilberto Gil

segunda-feira, 30 de maio de 2011

MULHERES

Estava num desses plantões movimentados, atendendo a um homem que tinha sofrido atropelamento de bicicleta, quando chegou uma mulher perto de mim e murmurou:

"Doutor, será que você pode me atender?"

Não gosto quando estou atendendo um paciente e outro vem me interromper, porque me concentro em dar bastante atenção à pessoa. Por isso, na hora pedi para que a mulher esperasse eu terminar de atender e nem cheguei a lhe dar muita atenção. Mas ela não desistiu e disse:

"Mas doutor... É que eu estou sem meu dedo"

Aquilo foi o suficiente para eu deixar de lado o homem, que estava sem problema algum, e fosse ver o que havia acontecido com ela. E só então eu me dei conta que, na verdade, não era uma mulher, e sim um travesti. Continuei tratando como "senhora", porque ela própria disse preferir assim.

De fato, estava sem parte de um dos dedos. Vinha com a mão dentro de um saco cheio de gelo e, assim que eu me aproximei, tirou de dentro para eu ver. Metade do dedo indicador havia sido arrancado, ficando só o osso fraturado exposto para fora na pontinha que  continuou na mão.

Entrei em contato com o ortopedista para que a atendesse e tentasse resolver a situação. Questionei que acidente havia provocado aquilo. Então explicou: ela era garota de programa e, durante uma briga com outra, apontou o dedo para a rival, que prontamente pulou e lhe mordeu o dedo até arrancar da mão.


http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/foto/0,,14724945,00.jpgO ortopedista ao examinar decidiu de imediato tentar operar. A cirurgia durou uma parte da noite. Foram inúmeras tentativas de reimplantar o dedo à mão, mas nenhuma teve resultado efetivo, fosse pela demora para procurar socorro, fosse pela forma como o dedo tinha sido arrancado.

No pós-operatório, fui conversar com ela para explicar a situação. Ela aceitou bem e, chorosa, explicou que mentira para mim. De fato, o dedo havia sido arrancado por mordidas de outra travesti, mas na verdade aquela era sua melhor amiga, que havia lhe roubado um rapaz que era ótimo cliente, por quem a vítima era apaixonada. Ela finalizou dizendo:

"Ela já me roubou dinheiro, cliente, o namorado e agora tomou até meu dedo"

Naquele momento, eu vi que não tinha mais nada para falar que pudesse diminuir seu sofrimento. Dei meu apoio e preferi deixá-la absorver sua angústia até estar forte outra vez para seguir em frente.



MULHERES é uma música de Martinho da Vila

quarta-feira, 25 de maio de 2011

FÉ CEGA, FACA AMOLADA

Chegou à emergência uma paciente de 53 anos com problemas de visão que vinham se agravando nas últimas semanas. Contou que começou como visão dupla, mas depois os olhos foram realmente escurecendo até desaparecer por completo de um lado e parcialmente no outro. Referia também algumas dores de cabeça que apareciam diariamente, mas nada que a impedisse de fazer suas atividades.

A neurocirurgia foi logo contactada. Realizaram exame físico completo na paciente e identificaram mais alterações neurológicas, que imediatamente preocupou a equipe. A paciente foi levada no mesmo dia para realizar uma tomografia computadorizada de crânio.

Assim que saiu o resultado, logo ficou definido o motivo para a doença: a paciente estava com um grande tumor de crânio, provavelmente maligno por seu aspecto, acometendo uma parte do cérebro, e dessa forma afetando a visão, causando a dor de cabeça e as demais alterações.

Para não perder mais tempo, a neurocirurgia logo definiu uma data para realizar um procedimento cirúrgico em que pudesse extrair o tumor e diminuir seus efeitos danosos, para posteriormente realizar quimioterapia.

Embora tudo parecesse muito certo, um grande empecilho surgiu. Assim que soube da certeza de cirurgia, a paciente avisou: "Eu sou testemunha de Jeová". A informação foi o bastante para apavorar a equipe por razões óbvias. Os discípulos do dogma chamado Testemunhas de Jeová tem ensinamentos rígidos no que diz respeito aos cuidados de saúde. Uma das grandes proibições, que preocupa sempre os médicos, é que um testemunha de Jeová não pode, sob qualquer hipótese, receber tecido orgânico de outro ser humano.

Isso significa dizer que não podem receber qualquer tipo de transplante ou transfusão sanguínea. Nesse caso, a paciente certamente precisaria de reserva para transfusão, já que seria uma cirurgia cerebral, correndo riscos de receber sangue. Mas ela imediatamente se recusou. Não aceitaria de forma alguma receber sangue de outro ser humano. Segundo ela, "Se Deus me quer doente, Ele sabe o que faz. Se for para me curar, Ele arranjará um jeito".

Foram inúmeras as tentativas de dissuadi-la da idéia, mas ela se manteve irredutível. Só faria a cirurgia se não recebesse qualquer transfusão, do contrário processaria todo o serviço médico. Nenhum cirurgião também se arriscaria em operá-la sem a certeza de poder transfundir. Existem duas formas de resolver isso: a auto-transfusão e o uso de transfusão sintética.

A transfusão sintética usa sangue produzido em laboratório, não vem de outro ser humano. Tem grande risco de complicações, mas solucionaria o caso. O problema é que ainda é fora da realidade brasileira, ainda mais no SUS. A auto-transfusão seria retirar pequenos volumes de sangue da própria paciente e ir guardando até ter a quantidade necessária disponível. Isso demandaria muito tempo, o que não resolveria a urgência dela.

Por maiores que fossem os apelos da equipe de neurocirurgia, nada mudou a situação. A paciente decidiu que seria mais importante para seu espírito não receber o tratamento cirúrgico e morrer em paz com suas crenças. Dessa forma, a equipe se viu obrigada a lhe dar alta no terceiro dia de internamento, com as mãos atadas, sem muito o que fazer. O processo de auto-transfusão foi iniciado mas, ao cabo de duas semanas, as queixas pioraram, a visão do outro olho já estava quase perdida. Com quase 45 dias da admissão à emergência, a paciente foi a óbito, mantendo-se convicta de sua fé.



FÉ CEGA, FACA AMOLADA é uma música de Milton Nascimento